sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

O quê que eu vou fazer com essa tal liberdade

Em meados de 86, voltei a morar com meus pais, no Careiro da Várzea. Meio (muito) a contra gosto.
Mamãe me (re) matriculou, em uma escola, já bastante conhecida minha: Escola Estadual Coronel Fiúza. Era a única escola estadual no município. Era um prédio de 10 salas de aula; 1 sala dos professores (mais um, corredor que sala); a diretoria (de quem fiquei intima na 8a); 2 banheiros pra ambos os gêneros (onde anos depois, tentei virar fumante dos cigarros, que "afanava" da taberna de meu pai);  1 pátio, onde lanchávamos um pão esfarelante e um kisuc de laranja; entre os corredores, uma área verde (que de verde só tinha 1 bananeira e mato); na entrada da escola, um jardim (1 pé de papoula vermelha) e uma área de hortas, que serviam pra aula de práticas agrícolas (como se alguém ali, já não nascesse sabendo lavourar); 1 biblioteca de poucos livros (li todos até os que não deveria), e onde me apaixonei por Hitler (já pedi perdão desse pecado)...e por fim, a...será que posso chamar um quadrado de cimento, já todo espocado de matos, de quadra,,?! ..mas era assim que era a quadra.
Não lembro o dia exato, mas calculo que fosse segunda-feira, entrei (pela milionésima vez) pelo portão...alguns me olhando com curiosidade, outros com certo desprezo (voltou,?)..enfim! Me dirigi ao último corredor, à ultima sala, de última categoria. Olhei a plaquinha, 5° B (a 5° A estudiosos e queridinhos), e quase visualizei "pretensos seriais killers"; respirei fundo, e mais fundo (senti cheiro de estrume de boi)...entrei. Entrei e já procurei a última cadeira do fundão, mas, meus diletos colegas já haviam tido a mesma idéia. Só me restava sentar na frente (abominação!!!)...quase de cara com os professores. 
Os dias foram passando...de forma preguiçosa, como em todos os interiores devem ser. Travei conhecimento (amizades não) com alguns de meus colegas (todos muito mais velhos), e sempre observava muito, tudo! a maioria fumava, falavra palavras de baixo calão, como se fosse música...e detestavam estudar. Peguei logo a "má fama" de queridinha das professoras, só porque fazia todos os deveres. Belo dia, lá pelo 4° tempo, Joana, uma moça bonitinha, que tinha pimenta malagueta ao invés de sangue nas veias, fala quase gritando: Ai não! Padre Higino (italiano, de belos e duros olhos azuis), eu não aguento! Chato demais a aula dele! - vira-se pra mim e solta: vamos fugir?! Lembro até hoje a sensação que senti: um soco no estômago! Meu lado sensato pensou: e se meu pai  descobrir,?, e se nos pegarem ?, e se , e se...e mais um milhão de e ses! Mas o lado insensato (sempre mais forte nos jovens), imaginou logo a má fama de queridinha descendo pelo ralo, e a fama de bad girl (tão ansiada), brilhando como neon! Olhei pela janela (a única coisa que me separava da tal LIBERDADE), e logo depois, os campos de gado do coronel Zezim Leôncio...e não me contive...aceitei o convite. Bem na hora em que uns 7 colegas (que iam a escola só pra fugir dos trabalhos braçais) já haviam pulado a janela, e Joana, a apimentada, me olhava com olhos inquiridores (pulas ou não?), decidi ceder à insensatez. Subi a janela com joelhos mais trêmulos, que vara verde na correnteza...e pulei. Quer dizer, o lado insensato pulou...sem medo de ser feliz...mas o lado sensato (pasmem, eu ainda tinha), se segurou com o braço direito...acho que na tentativa de me livrar de uma "roubada". Resultado: ralei o braço, caí de mau jeito numa pilha de tábuas (acredito que colocada ali pra facilitar a fuga dos fujões) bati o pandeiro e de quebra,  rasguei minha calça. Pulsação no estômago, braço sangrando, calças rasgada, olhos lacrimejantes e garganta ardendo, de conter o choro...foi nessa situação lamentável, que me arrastei, uns 10 metros, até a cerca (já préviamente furada) da extinta TELAMAZON (onde cada segundo de ligação, era um horror de dinheiro)...e ai sim...pude respirar os ares da tal LIBERDADE! Enganosa liberdade....pois quase morri do coração, ao ouvir a voz estrondosa (quase masculina) da diretora dn. Maria José Farias da Fonseca (sempre fazia rimas pouco elogiosas com seu nome). Não acreditei naquilo (entendo os senhores se também não me acreditarem)...achei que Deus estava estourando de rir da minha cara de paspalha, e com o dedo em riste na minha direção. Fechei os olhos...e fiquei esperando os gritos dela em reprimenda a nós, a qualquer momento (é pra isso que os pais de vocês se matam de trabalhar?)...os fujões, que se resumiam a mim e a Joana, pois o resto, havia pegado o beco.Literalmente o beco entre a escola e a TELAMAZON! Joana, já habituada às fugas, sei lá como, me tirou dali...até hoje me pergunto como (menina do olho junto!!!). Quando dei por mim, estava na ultima rua da Vila (só haviam 3)...livre...livre..!! Aspirei o ar...como se fosse a última vez...e como sou muito musical, pensei logo numa trilha sonora: alô mamãe...alô papai! Passei no vestibular! do Pinduca. Pra logo depois, cair na real. Eu estava em uma Vila de três ruas, que de qualquer ponto, daria pra ver a escola. E onde absolutamente todos se conheciam! Ir pra onde? 2 tabernas grandes: dn. Maria Augusta e Góes; 2 lanchonetes: dn. Maria Fiúza e sêu Josué e o flutuante do sêu Carlinhos. Senhores...absolutamente todos, tinham vínculos de sangue ou de amizade com a maléfica diretora! E aí senhores, depois desta triste constatação, liberei o choro que havia contido ao longo da fuga. Foi um choro baixinho (apesar de eu querer gritar), pois se fosse um pouquinho mais alto, a diretora ouviria da escola. E assim, vi minha tal LIBERDADE escorrendo pelos dedos...e fui me esgueirando até o barco escolar. Me encolhi no banco e recitei um mantra:. aula acaba logo! Sino toca logo! O qual repeti exaustivamente!
Depois dessa, não lembro de haver fugido outra vez. Quando a aula era entediante, me recolhia no meu mundinho imaginário...e o tempo voava. 

14 comentários:

  1. Kkkkkkkkkkkkkkkk, muito bom além de muito hilario, bem agradavel de ler...

    ResponderExcluir
  2. Obrigada dn. Leiliane. Que bom que apesar de não me conhecer (00), a senhora gostou de verdade!

    ResponderExcluir
  3. Muito bom o conto Nelma. Morri de rir e ao mesmo tempo sofri com o desapontamento da tal liberdade... rsrs... Mas o fato é que não tenho dúvidas que você tem jeito pra coisa (escrever). Gosto do seu ritmo de texto cadenciado, gerando um certo suspense, sem falar dos momentos hilários de suas histórias... Vc tá no caminho...

    ResponderExcluir
  4. Caro desenbargador, muito obrigada pelas palvras. Tentarei nunca desapontar..rsss

    ResponderExcluir
  5. Totalmente envolta na história, adorei! Haha

    ResponderExcluir
  6. d+ amiga da onça , d+, porq a senhorita voz de coveiro não escreve um livro

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. quetido locutor de velório...nw sei se alcançaria tantas pessoas cm um livro. Além do mais, nw sou erudita...minha escrita é mt simples. Mas..obrigada...t amo mano

      Excluir
  7. Ow que honra receber aqui, minha ilustre sobrinha Tata. Obrigada filha...ore pra q eu lembre de mais fatos interessantes dessa minha vida desinteressante. T amo

    ResponderExcluir
  8. Menina. E esse talento de contar histórias de maneira cômicas se perdendo no anonimato. Bjos. Amei!

    ResponderExcluir
  9. Querida prima Vivi, agradeço sua visita....sinta-se a vontade pra voltar e voltar. bjs

    ResponderExcluir
  10. Muito bom! Liberdade falsa é aquela conquistada de maneira errada. Mas é bom passar por isso, só aprendemos vivendo né? Sua narrativa é excelente! Beijos.

    ResponderExcluir
  11. muito me honra seu apoio, querida sobrinha Ka. T amo

    ResponderExcluir
  12. Quer dizer que eu fazia parte da turma dos queridinhos(5 01) Vim saber agora. RS. Mana vc deveria escrever um livro. Já pensou: As peripécias de Nelma Guerreiro no Coronel Fiuza. Ah! Sabe que eu até gostava das aulas do Padre Iginio. Kkk.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. rssss.....ow amiga! Livro não dá. Não sei quem seria louco pra gastar dinheiro com isso. Mas...aqui no blog quando vir as lembranças...euu ponho.

      Excluir